Após 20 anos, pesquisa da UFMG, dona da maior coleção arqueológica antártica do mundo, é cortada do Proantar

Arqueólogos não vão usufruir da nova Estação Antártica Comandante Ferraz, inaugurada nesta quarta-feira (15). Investimentos foram reduzidos a um décimo da previsão inicial.

Pesquisa da UFMG sobre ocupação na Antártica está ameaçada por causa de cortes de verbas

Pesquisa da UFMG sobre ocupação na Antártica está ameaçada por causa de cortes de verbas

Objetos arqueológicos podem comprovar presença humana na Antartica antes da descoberta oficial  — Foto: Andrés Zarankin/Arquivo pessoal

Objetos arqueológicos podem comprovar presença humana na Antartica antes da descoberta oficial  — Foto: Andrés Zarankin/Arquivo pessoal

Objetos arqueológicos podem comprovar presença humana na Antartica antes da descoberta oficial — Foto: Andrés Zarankin/Arquivo pessoal

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Andrés Zarankin costumava tomar um café na antiga Estação Antártica Comandante Ferraz, que pegou fogo em 2012, antes de sair em expedição. Agora, ele teme não conhecer a nova estrutura inaugurada nesta quarta-feira (15) porque sua pesquisa foi cortada do Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

Zarankin coordena um estudo que pode reescrever a história do continente gelado. A equipe dele tenta provar que o homem chegou à Antártica muito antes das expedições de europeus no século XIX e início do século XX.

A nova estação brasileira na Antártica foi inaugurada nesta quarta-feira (15) pela Marinha — Foto: Divulgação Marinha do Brasil

A nova estação brasileira na Antártica foi inaugurada nesta quarta-feira (15) pela Marinha — Foto: Divulgação Marinha do Brasil

A nova estação brasileira na Antártica foi inaugurada nesta quarta-feira (15) pela Marinha — Foto: Divulgação Marinha do Brasil

Segundo o pesquisador, a UFMG tem hoje a maior coleção de objetos arqueológicos antárticos do mundo no laboratório do Departamento de Arqueologia. Porém, não há recursos para mantê-la e a situação é dramática.

“A coisa que mais me incomoda é que o nosso projeto foi cortado em um momento que alcançamos o máximo de amadurecimento tanto a nível teórico como a nível metodológico e técnico”, disse ele que visita a Antártica há mais de 20 anos.

A pesquisa já escaneou 70% dos sítios arqueológicos e o material, em 3D, está disponível na internet a estudiosos de todo mundo. A ideia era chegar aos 100% em dois anos.

“Para mim é o resultado de políticas públicas de marginalização das ciências sociais e ciências humanas”, falou Zarankin que teve recursos negados depois que o projeto dele foi cortado em uma banca de avaliadores formada por especialistas em outras ciências.

Em 2017, por exemplo, os pesquisadores encontraram restos de sapatos e garrafas de vinho e cerveja que provavelmente foram deixados ali por caçadores de focas, baleias e leões-marinhos do fim do século XVIII.

Acampamento de pesquisadores na Antártica — Foto: Andrés Zarankin/Arquivo pessoal

Acampamento de pesquisadores na Antártica — Foto: Andrés Zarankin/Arquivo pessoal

Acampamento de pesquisadores na Antártica — Foto: Andrés Zarankin/Arquivo pessoal

Agora, com os cortes sistemáticos de bolsas como a do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o investimento caiu para um décimo do que era originalmente, segundo o professor. A pesquisa vai continuar na Terra do Fogo, na Patagônia, longe dos sítios arqueológicos da Antártica, fontes principais do estudo.

O investimento na nova Estação Comandante Ferraz foi de US$ 99,6 milhões (cerca de R$ 400 milhões). E vai abrigar 64 profissionais do Proantar. Nenhum deles faz parte da equipe coordenada por Zarankin.

Eles costumavam acampar em vários pontos do continente gelado e chegavam a usar a antiga estação como base para tomar pelo menos um cafezinho. “Agora nem isso”, disse ele.

Em 2019, o CNPq operou durante mais de dez meses com um déficit orçamentário de cerca de R$ 300 milhões, devido ao corte da verba entre 2018 e 2019. Um reforço orçamentário de R$ 250 milhões só foi liberado no fim de outubro, para garantir o pagamento mensal a quase 80 mil bolsistas.

O G1 procurou o CNPq e aguarda posicionamento sobre esta pesquisa.

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