Confusão na abertura oficial do carnaval carioca reacende debate entre blocos de bairro e megaeventos

A confusão após a abertura oficial do carnaval de Rua no último domingo (12) em Copacabana reacendeu a discussão sobre o formato do carnaval de rua no Rio. Um dia depois do tumulto, a Associação de Moradores de Copacabana e associações de blocos mais tradicionais da cidade questionaram o formato usado no show do Bloco da Favorita. A organização do bloco se defendeu.

Faltando menos de 50 dias para o início do carnaval, a Prefeitura do Rio ainda não divulgou a lista oficial com todos os blocos de rua que vão desfilar na festa de Momo desse ano, mas já anunciou que os grandes blocos vão desfilar no Centro da cidade. Como comparação, em 2019, foram mais de 300 desfiles em todas as regiões da cidade.

A festa oficial de abertura do carnaval de rua do Rio atraiu 300 mil pessoas ao bairro de Copacabana, na Zona Sul, neste domingo, mas o evento terminou com confusão, correria e bombas de gás lacrimogêneo na dispersão da festa por volta das 20h. Vinte e oito pessoas foram presas.

Guardas municipais e policiais militares jogaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Segundo relatos publicados em redes sociais, também ocorreram brigas e um arrastão na areia após a apresentação do bloco.

Ainda de acordo com esses relatos, uma briga entre guardas municipais e ambulantes que tentavam impedir a liberação da via pode ter provocado a grande confusão no local.

Dispersão do Bloco da Favorita tem confusão e guardas jogam bombas de gás lacrimogênio

Dispersão do Bloco da Favorita tem confusão e guardas jogam bombas de gás lacrimogênio

Confusão em blocos no Centro

Essa não foi a primeira vez que incidentes como esses aconteceram e os problemas nem mesmo estão restritos aos blocos mais cheios.

Moradores são contra megaeventos

Para alguns moradores de Copacabana, o problema não é a presença de blocos de carnaval no bairro, mas sim o conceito da festa.

Em entrevista ao G1, o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, disse que eventos como o do último domingo não são de carnaval.

“Nós não somos contra eventos de carnaval, seja de blocos, palco ou trio. Nós tivemos grandes desfiles em Copacabana em 2018 e 2019 e foi tudo bem. Mas somos contra o Baile da Favorita. Eles não são um bloco ou uma banda. São um produto, com artistas variados e por isso atraem um grande público”, disse Horácio Magalhães.

“Copacabana têm cerca de 174 mil pessoas e eles trouxeram quase duas Copacabana. Esses mega blocos são atrações artísticas”, completou.

Entre os problemas apontados pelos moradores está a questão do funcionamento normal do bairro. Em um dos relatos, Magalhães contou que uma moradora precisou pedir uma ambulância para o seu atendimento e o Corpo de Bombeiros informou que não tinha como atender o chamado imediatamente. Segundo ele, a corporação disse ter 43 pedidos na frente daquele e o trânsito no local estava muito intenso.

Imagem aérea mostra a multidão que tomou conta da orla de Copacabana durante o bloco A Favorita, em 2018 — Foto: Fernando Maia/Riotur

Imagem aérea mostra a multidão que tomou conta da orla de Copacabana durante o bloco A Favorita, em 2018 — Foto: Fernando Maia/Riotur

Imagem aérea mostra a multidão que tomou conta da orla de Copacabana durante o bloco A Favorita, em 2018 — Foto: Fernando Maia/Riotur

Associações de blocos criticam evento

O Fórum Carioca de Blocos de Rua, grupo formado por organizadores de blocos tradicionais, como a Sebastiana, Zé Pereira, Coreto, Cordão do Bola Preta, entre outros, divulgou uma nota repudiando o ocorrido em Copacabana com o Bloco da Favorita.

Em um trecho da nota, os organizadores observaram as diferenças entre o carnaval tradicional e os megaeventos.

“Nem tudo que se diz carnaval é carnaval. Há uma distância profunda entre carnaval de rua tradicional, composto de blocos feitos por foliões, que ocupam as ruas de forma alegre e afetiva. São pessoas comprometidas com a cidade e com a cultura carioca. No entanto alguns desses blocos que hoje fazem parte do calendário da prefeitura, por serem shows de grandes artistas, atraem grandes multidões e precisam ser tratados como eventos e ter um tratamento adequado. É fundamental o planejamento e a análise de locais que sirvam a esse tipo de projeto”, dizia uma parte da nota do Fórum.

Para a presidente da Sebastiana, Rita Fernandes, a maior preocupação é que o carnaval passe a ser reconhecido por esses grandes shows.

“Nossa preocupação é que isso se misture e contamine o carnaval de rua. O que a gente não pode deixar é que o trabalho que a gente faz seja contaminado pela falta de cuidado da prefeitura com o carnaval da cidade. Estão descaracterizando o carnaval. Não dá para um bloco de show de artista virar o sinônimo do carnaval de rua”, comentou Rita.

Segundo a representante de blocos, é fundamental que as autoridades pensem o carnaval de rua e diferenciem os diferentes modelos de festa.

“Precisamos de um marco regulatório do carnaval de rua do RJ. Precisamos que o Estado, a Alerj e a Câmara trabalhe conosco. É preciso diferenciar o que é carnaval de rua e o que é bloco show. O Rio não está sabendo cuidar daquilo que a gente criou e que reflete tão bem em outras cidades, como Belo Horizonte e São Paulo”, completou Rita, que questionou porque a abertura oficial do carnaval de rua da cidade não teve a participação de nenhum bloco tradicional carioca.

Foliã é carregada no meio da confusão no bloco Fervo da Lud, no Centro do Rio de Janeiro, em 2019 — Foto: Alexandre Durão/Código19/Estadão Conteúdo

Foliã é carregada no meio da confusão no bloco Fervo da Lud, no Centro do Rio de Janeiro, em 2019 — Foto: Alexandre Durão/Código19/Estadão Conteúdo

Foliã é carregada no meio da confusão no bloco Fervo da Lud, no Centro do Rio de Janeiro, em 2019 — Foto: Alexandre Durão/Código19/Estadão Conteúdo

A CS Eventos, empresa da promoter Carol Sampaio, responsável pela organização do Bloco da Favorita, também divulgou uma nota sobre os incidentes que aconteceram depois do show.

Segundo eles, “durante o evento tudo correu como o esperado e transcorreu sem nenhuma intercorrência ou registro de violência”.

Contudo, a empresa alegou que questões relacionadas à segurança pública, ordenamento urbano e transporte são de responsabilidade do Poder Público e fogem das atribuições da empresa.

“Agradecemos e nos solidarizamos com o público, que merece lazer, cultura e segurança para ir e voltar dos eventos realizados em qualquer lugar da nossa cidade”, dizia a nota.

Segundo Secretaria de Estado de Polícia Civil (Sepol), 28 prisões em flagrante pelos crimes de tráfico de drogas, roubo e furto foram registradas. Das 12h às 24h, as autoridades realizaram 85 registros de ocorrência nas delegacias da região. Cinco carros da Guarda Municipal também foram quebrados.

Um policial militar foi atingido na cabeça por uma garrafa lançada por vândalos. Ele foi socorrido ao Hospital Municipal Rocha Maia, onde recebeu atendimento médico e foi liberado.

Em 2017, um folião passa mal e foi socorrido no Bloco das Poderosas — Foto: Alexandre Durão/G1

Em 2017, um folião passa mal e foi socorrido no Bloco das Poderosas — Foto: Alexandre Durão/G1

Em 2017, um folião passa mal e foi socorrido no Bloco das Poderosas — Foto: Alexandre Durão/G1

MP tentou suspender o evento

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) tentou por duas vezes suspender o Bloco da Favorita. O órgão teve seu pedido negado por duas instâncias judiciais.

No dia 10, o Ministério Público estadual requereu à Justiça que suspendesse a apresentação afirmando que a festa não havia sido planejada com antecedência e poderia apresentar riscos à segurança da população. A ação foi protocolada pela Sociedade Amigos de Copacabana, que é contra o bloco. A 9ª Vara de Fazenda Pública negou o pedido.

Ainda no sábado (11), véspera da apresentação, o MPRJ teve negado no plantão judiciário, recurso de agravo de instrumento interposto no mesmo dia, para que os organizadores não realizassem o evento.

Nas ações, o MPRJ alertou sobre os riscos do evento.

“O deslocamento de multidões para um bairro residencial sem os devidos protocolos de escoamento dos participantes, o que depende por exemplo da ampliação do transporte público, somada a ausência de locais apropriados para uso de banheiro, entre outros fatores, acirra os ânimos e aumenta o grau de periclitação da segurança pública, podendo inclusive chegar a gerar aumento do risco de ocorrências policiais, acidentes e outros sinistros, que podem inclusive fugir ao controle, em especial pela ausência de mecanismos de barreiras, escoamentos e outros protocolos prévios, valendo lembrar inclusive que, em eventos de tal magnitude e natureza, é comum também a ocorrência de situações imprevistas, as quais somente mediante o adequado planejamento podem ser absorvidas sem gerar crises de grandes proporções”, dizia o agravo.

“Se por um lado é certa a vocação turística da cidade do Rio de Janeiro e do bairro de Copacabana, o seu exercício, em especial, por ocasião da realização de megaeventos, deve se dar de forma a respeitar a legislação vigente e os princípios em vigor, sob pena de atentar justamente contra a higidez do Carnaval e do turismo, enquanto patrimônios imateriais da cidade, além de impactar diretamente a segurança pública”, observa o recurso.

Ainda sem um calendário completo com todos os blocos de rua do Rio durante o carnaval, a Prefeitura divulgou, na última quarta-feira (8), as datas dos grandes blocos que desfilarão na cidade.

“A gente volta e perguntar porque a abertura oficial do carnaval não foi construída de uma forma conjunta com quem de fato constrói o carnaval, com blocos tradicionais. Se a prefeitura quer fazer um show ok, mas esse não pode ser o carnaval oficial de rua. Quais dos blocos tradicionais da cidade estavam no palco ontem? Nosso carnaval é aberto, no cão, para todos”, disse Rita Fernandes.

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