Crise infinita da Boeing motiva reações de analistas. Pode respingar na Embraer?

SÃO PAULO – Cercada de desconfianças, a Boeing inicia 2020 com mudança na presidência e enfrentando a maior crise que já passou nos seus 103 anos de existência.

Um nova série de documentos enviados pela empresa ao Congresso dos Estados Unidos revelam que funcionários sabiam dos riscos que o modelo 737 MAX apresentava durante o processo de certificação da aeronave.

Nas mensagens, os pilotos falam de falhas nos simuladores do aparelho no sistema de controle de voo, o MCAS (Sistema de Aumento de Características de Manobra), suspeito de ser a origem dos dois acidentes que mataram 346 pessoas na Etiópia e Indonésia.

Apesar do período turbulento vivido pela Boeing, analistas do setor ouvidos pelo InfoMoney acreditam que o contexto não irá atrapalhar a fusão com a Embraer.

No início de 2019, foi ajuizada a compra pela Boeing de 80% do controle da área de aviação comercial da Embraer, por US$ 4,2 bilhões (R$ 16,8 bilhões). Em uma operação semelhante à que aconteceu entre Airbus e Bombardier, as empresas seguem esperando autorização dos reguladores para fechar a transação.

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, argumenta que a Boeing possui atuação em outros nichos, e isso pode sustentar a receita da companhia durante a crise, permitindo o andamento da fusão.

“Parte relevante dos resultados da empresa advém dos negócios militares da Boeing. Em 2018 [antes da crise], o segmento da aviação civil respondeu por 56% das receitas, ou seja, existem outros 44% menos afetados pela questão do 737”, afirma Alves.

Já Arthur Siqueira, sócio e analista de investimentos da gestora GEO Capital, especializda em investimentos no exterior, acredita que os próximos anos não serão fáceis para a Boeing, porém, sendo superado o veto ao 737 MAX, a empresa pode reverter o quadro rapidamente.

“Ela está se fragilizando por não estar conseguindo vender os aviões, nem manter o nível de produção do programa 737 MAX que é muito relevante para companhia. Mas, olhando para o setor como um todo, o futuro da aviação comercial nos próximos 20 anos para aeronaves que fazem voos mais curtos segue tendo como base o 737 e o A320 da Airbus”, diz.

737 MAX, o problema

De acordo com as investigações, um software de correção do ângulo de voo da aeronave chamado MCAS pode ser o responsável pelas duas tragédias. Além da fragilidade do sistema, a falta de treinamento de pilotos em situações que o dispositivo era acionado também é apontada como outro causador das quedas.

Envolvida em dois acidentes, a aeronave está proibida de circular em todo o mundo desde março do ano passado e, enquanto isso, a empresa passa por vários questionamentos sobre a segurança do seu principal modelo.

O FAA (órgão federal de regulação aérea dos EUA) afirma que a Boeing sabia do risco oferecido pelo sistema do 737 MAX, pois uma conversa de 2016 entre dois pilotos da empresa revela que o MCAS dificultava a pilotagem do avião em um simulador.

Somam-se às acusações, ainda, a ocultação do software do manual de bordo do avião e a omissão de informações e documentos a respeito dos problemas de fabricação da aeronave à agência americana, das companhias aéreas que compraram unidades do modelo e de pilotos.

Reação da empresa

Sem poder vender o 737 MAX, que representa 80% de todos os pedidos em estoque da multinacional, a Boeing suspendeu temporariamente a produção da aeronave e interrompeu a entrega das unidades, que sai por cerca de US$ 121,6 milhões cada.

De acordos com a agência Reuters, o veto mundial ao modelo já custou mais de US$ 9 bilhões para a Boeing, uma conta que poderá aumentar porque depende da autorização dos reguladores.

Para compensar o tempo em que o modelo passa por reestruturação e discussões sobre falha de projeto, a Boeing segue fechando acordos com os operadores do 737 MAX. A americana Southwest Airlines, maior operadora do 737 no mundo, confirmou em dezembro que fechou uma compensação financeira com a fabricante.

No Brasil, Celso Ferrer, vice-presidente de operações da Gol, informou que a companhia aérea espera até março a resolução do impasse envolvendo a aeronave para começar a operar com o 737 MAX  em abril e espera receber uma compensação em breve.

Desde o último acidente com o modelo, em março de 2019, o preço das ações da Boeing caiu cerca de (-20,4%). O lucro operacional da Boeing nos primeiros nove meses de 2019 também registrou queda (-97%), em relação ao mesmo período de 2018.

A empresa ainda precisa pagar parte de suas dívidas e financiar dividendos para os acionistas mesmo registrando em seus últimos resultados divulgados (terceiro trimestre) uma queda de 53% no lucro do período e um fluxo de caixa negativo de US$ 2,89 bilhões.

Com a demora de retomar a operação do modelo, a Boeing está considerando aumentar seu volume de dívidas como forma de reforçar o caixa da empresa, segundo a agência Dow Jones Newswires.

Em meio ao momento crítico, a companhia se prepara para trocar de presidente-executivo. A frente do conselho de administração da companhia, David Calhoun, substitui Dennis Muilenburg no cargo com a expectativa de retomar a confiança com os órgãos reguladores e melhorar a imagem, governança e finanças da empresa.

A escolha de Calhoun, para Siqueira, da GEO Capital, é o resultado da estratégia de transparência que a companhia adotou para enfrentar o momento. Desde 2009 na Boeing, o executivo é bastante familiar com a companhia e seus negócios e veterano em gerenciar empresas em crise.

Calhoun é co-autor do livro, “How Companies Win” (Como companhias vencem, em tradução livre), e diz que ser sincero faz parte das característica de um líder, uma abordagem que se contrapõe, conforme alguns críticos, às atitudes iniciais da companhia no processo de investigação do 737 MAX.

“No segundo em que você entra no escritório até o segundo em que sai, toda interação é julgada. Você tenta esconder qualquer coisa de todo mundo e acho que sua linguagem corporal se torna perfeitamente aparente”, disse ele em um vídeo publicado em 2014 pelo Instituto de Gerenciamento Jack Welch.

Analistas descrentes

Não encontrando uma solução breve para o problema do 737 MAX, os preços-alvo das ações da companhia seguem sendo rebaixados por vários analistas.

Na quarta-feira (8), o banco de investimento Cowen reduziu de US$ 419,00 para US$ 371,00 o preço-alvo e alterou recomendação de compra para neutro. O banco era uma das poucas instituições que via um futuro otimista no curto prazo para a companhia.

Segundo Cai von Rumohr, analista do Cowen, a crise do MAX terá efeito em cascata nas entregas e isso aumentará o montante que a Boeing terá que pagar em compensação para os seus clientes. “Nosso palpite é que a compensação total poderá atingir US$ 10-14 bilhões”, disse von Rumohr em relatório.

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Os números alarmantes e os últimos acontecimentos, defende David Spring, professor da Universidade de Washington, podem levar a empresa à falência.

Em documento publicado em maio, o docente afirma que a aeronave em questão foi “projetada para cair” – e, em breve, ninguém no mundo vai querer se sujeitar a voar em um Boeing. “A Boeing continua a priorizar lucro de curto prazo para a companhia acima da segurança das pessoas”, escreveu Spring.

Por enquanto, essa é uma análise isolada. Ainda que os analistas estejam preocupados e revisando as projeções, uma minoria dos que acompanham a companhia recomenda vender suas ações. Apenas três das casas de análise presentes no monitor da Bloomberg têm essa recomendação para o papel (10,3%), contra dez que recomendam compra (34,5%) e 16 com manutenção (55,2%).

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