Especialistas avaliam que faltou planejamento e houve falhas na segurança da dispersão do Baile da Favorita


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Após confusão em Copacabana, Crivella agora quer liberar só um bloco grande por dia na Zona Sul

Luiz Ernesto Magalhães, Gustavo Goulart e Paulo Cappelli

14/01/2020 – 04:30

Confusão próximo ao palco teve spray de pimenta para dispersa multidão Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo
Confusão próximo ao palco teve spray de pimenta para dispersa multidão Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo

RIO — Copacabana amanheceu nesta segunda-feira juntando os cacos — literalmente. Enquanto garis recolhiam incontáveis pedaços de vidro nas calçadas, no asfalto e na areia, uma equipe consertava as janelas do hotel Windsor Excelsior quebradas durante o Baile da Favorita, que reuniu cerca de 300 mil pessoas no domingo, segundo estimativas oficiais. Manchas de sangue ainda podiam ser vistas no chão, assim como paus e pedras lançados contra guardas municipais e policiais que tentaram dispersar a multidão. Um cenário que, de acordo com especialistas em segurança e análise de risco, poderia ter sido evitado e foi resultado de uma espécie de “jogo dos sete erros”.

— A maior falha de planejamento foi na dispersão. Quando o evento terminou, garis deveriam ter começado a limpeza. Esse movimento sinaliza de forma mais clara, para o público, o fim da festa. Mas a Guarda Municipal agiu antes — disse Moacyr Duarte, professor do Grupo de Análise de Risco Tecnológico e Ambiental da Coppe/UFRJ.

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Pouco depois das 19h, guardas municipais começaram a tentar liberar a pista da praia junto aos prédios, onde havia um grande número de ambulantes, que reagiram. Em seguida, a confusão se estendeu da faixa de areia até as ruas internas de Copacabana. Ocorreu, então, um outro erro, de acordo com o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública:

—Não se dispersa uma multidão como aquela com bombas de efeito moral. Depois, a PM chegou com cavalos. O risco de incidentes graves é enorme, e houve um aumento da sensação de pânico.

Especialista em engenharia de transportes, o professor da Uerj José de Oliveira Guerra diz que a prefeitura deveria ter promovido eventos paralelos em outros pontos da praia — como acontece no réveillon— para evitar uma grande concentração de público em um único ponto da orla. Isso não aconteceu e, consequentemente, os transportes públicos ficaram sobrecarregados, principalmente o metrô.

— Em vez de o público se dividir entre outras estações do metrô, como no réveillon, acabou se concentrando na Estação Cardeal Arcoverde — diz Guerra.

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Falhas no planejamento do evento, anunciado pela Riotur como o início de 50 dias de carnaval na cidade, fizeram o município mudar os planos para a folia de rua. Em uma reunião com líderes comunitários e outras autoridades, o prefeito Marcelo Crivella decidiu proibir que dois grandes blocos desfilem num mesmo dia na Zona Sul. O calendário oficial da festa ainda não saiu, mas a nova regra deverá valer para Simpatia É Quase Amor, Banda de Ipanema, Spanta Neném e Suvaco do Cristo, entre outros.

—É uma decisão despropositada que vai na contramão do resto do Brasil, que tem incentivado o carnaval de rua. A confusão ocorreu em um bloco-show (Favorita), não em um bloco tradicional — afirmou Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, liga que reúne blocos de carnaval.

Tentativas de proibição

Associações de moradores haviam tentado, na Justiça, impedir a realização do Baile da Favorita, que aproveitou o palco principal do réveillon de Copacabana: alegavam falta de estrutura e segurança. O Ministério Público estadual também, sob a justificativa que a PM tinha vetado o evento porque não havia sido procurada com 70 dias de antecedência, como determina a legislação. A corporação, no entanto, acabou cedendo. A confusão de domingo acabou noticiada pela redes de televisão “ABC”, dos EUA, e “RTP”, de Portugal.

Várias pessoas ficaram feridas, inclusive um PM e um guarda municipal. A modelo Ana Paula Evangelista, musa da Unidos da Tijuca, ao tentar pular uma grade para escapar de brigas, fraturou o pulso esquerdo.

—Foi muito triste e nunca tinha passado por algo parecido na vida. Vi pessoas com a cara inchada, rosto sangrando e uma pessoa pisoteada — relembra Ana Paula.

Por nota, a PM frisou que, durante o evento, deu apoio à Guarda Municipal, que, por sua vez, destacou ter sido atacada por ambulantes. O metrô alegou ter reforçado as equipes e orientado passageiros a embarcarem em outras estações para evitar a sobrecarga da Estação Cardeal Arcoverde.

O Fórum Carioca de Blocos de Rua criticou o planejamento do Baile da Favorita e cobrou maior organização para o carnaval por parte de órgãos públicos. Responsável pelo bloco, a promoter Carol Sampaio, disse que cumpriu “todas as exigências legais estabelecidas pelo Poder Público” e que tinha as “autorizações e alvarás exigidos em lei”

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