O que se sabe e o que falta explicar sobre a água da Cedae com cor e odor alterados em bairros do Rio


Exclusivo para Assinantes

Após dez dias dos primeiros relatos em bairros do Rio, dúvidas ainda persistem sobre a qualidade da água

O Globo

14/01/2020 – 12:05
/ Atualizado em 14/01/2020 – 13:02

Moradores receberam água com cor barrenta na torneira Foto: Marcelo Theobald 07-01-2020 / Agência O Globo
Moradores receberam água com cor barrenta na torneira Foto: Marcelo Theobald 07-01-2020 / Agência O Globo

RIO – Desde que a água que sai das torneiras começou a apresentar turbidez, gosto “de terra” e cheiro desagradável, moradores de diferentes regiões do Rio de Janeiro mostram-se preocupados com o consumo do líquido. Cerca de dez dias após os primeiros relatos do problema e de sintomas depois da ingestão, dúvidas sobre as causas e consequências deixam os cariocas apreensivos. Veja abaixo o que já se sabe e o que ainda falta explicar sobre a água fornecida pela Cedae com cor e odor alterados.

LEIA:Em 11 pontos, tire suas dúvidas sobre o uso da água

Qual a explicação oficial dada pela Cedae?

A Cedae informou, no último dia 7, que detectou a presença de geosmina, substância orgânica produzida por algas, em amostras coletadas ao longo de sua rede de abastecimento. Ainda de acordo com a companhia estadual de água e esgoto, o crescimento de algas em mananciais, em decorrência de variações de temperatura, luminosidade e do índice pluviométrico, teria provocado a proliferação da geosmina. O fenômeno natural e raro, segundo a empresa, deixa água com “gosto e cheiro de terra”.

Amostras da água foram analisadas pela Vigilância Sanitária Foto: Divulgação
Amostras da água foram analisadas pela Vigilância Sanitária Foto: Divulgação

Quais testes foram realizados?

Segundo a Cedae, foram feitas análises em atendimento às exigências do Ministério da Saúde, conforme as normas legais, colocando a água dentro do padrão de potabilidade. De acordo com a estatal, amostras coletadas na rede de distribuição em 6 de janeiro indicaram ausência de coliformes totoais e de Escherichia coli — bactéria considerada um indicador de qualidade. Os testes também avaliaram três parâmetros físico-químicos: concentração de cloro, cor e turbidez, todas dentro da normalidade.

No entanto, um teste encomendado pelo “RJ1”, da TV Globo, trouxe dois parâmetros alterados numa água coletada em ponto de captação da Cedae em uma casa em São Cristóvão. O resultado do laboratório deu acima do máximo tolerado nos quesitos turbidez e bactérias heterotróficas, que podem servir de alimento para bactérias que causam doenças.

Especialistas desconhecem laboratórios públicos oficiais para detectar geosmina no estado e destacam que, como há floração de cianobactérias, é preciso saber se estão fazendo contagem e análise de cianotoxinas. Ou seja, para especialistas, mais testes precisariam ser feitos pela Cedae.

VEJA:Especialistas orientam consumidores diante de escassez de garrafas de água mineral nos supermercados do Rio

O que é a geosmina?

Especialistas explicam que trata-se de uma molécula, um organoclorado volátil, produzida por actinobactérias do solo ou cianobactérias aquáticas. Ela é considerada pouco tóxica, não traz risco à saúde, mas pode alterar o cheiro e o gosto da água. Mas apesar de a Cedae dizer que não faz mal, o engenheiro sanitarista e professor do departamento de engenharia sanitária e do meio ambiente da Uerj  Adacto Ottoni afirma que a presença da geosmina indica a presença de outros componentes tóxicos.

Quando teve início a alteração?

Não se sabe quando a alteração da água teria acontecido. No entanto, moradores de São Cristóvão, na Zona Norte, e de diferentes bairros da Zona Oeste começaram a relatar que a água das torneiras estava turva, com forte cheiro e gosto de terra no dia 3 de janeiro. Nessa mesma data surgiram também as primeiras reclamações de cariocas passando mal após terem bebido a água, mesmo com filtro instalado em casa.

Uso da água filtrada e fervida é permitido?

Especialistas ouvidos pelo GLOBO alertam que, enquanto não for descartada a presença de outras substâncias além da geosmina, a água turva e com cheiro deve ser filtrada e fervida para beber, cozinhar, lavar o rosto e escovar os dentes. Para a filtração, o recomendado é o filtro de carvão ativado. Deve ser observada ainda a validade do filtro. Outra possibilidade para os cariocas é o uso de água mineral. No entanto, supermercados e depósitos ja registram falta do líquido.

LEIA:Cedae decide incluir carvão ativado no tratamento da água

A água pode ser utilizada para o banho?

Infectologistas afirmam que não há problema tomar banho com a água turva e com cheio, sendo necessário apenas evitar que ela chegue ao rosto. Porém, ferimentos na pele impedem a utilização durante o banho.

Nas prateleiras de um supermercado na Tijuca, só sobraram garrafas de água de marcas mais caras Foto: Agência O Globo/Márcia Foletto
Nas prateleiras de um supermercado na Tijuca, só sobraram garrafas de água de marcas mais caras Foto: Agência O Globo/Márcia Foletto

Segundo o professor Gandhi Giordano, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Faculdade de Engenharia da Uerj, quem não notou alterações no aspecto da água pode manter seu uso normal. Ele observa que, por causa das férias, muitos edifícios ainda têm em suas caixas d’água o produto fornecido antes da detecção de geosmina.

O uso de cloro pode ajudar?

Para especialistas, o cloro deve ser usado apenas para desinfecção da água após o tratamento convencional. E tem que ser usado com muita cautela porque cloro acima de 2ppm reage com o PVC das tubulações domésticas e produz trihalometanos, altamente cancerígenos.

LEIA:Consumidores que se sentirem lesados podem entrar na Justiça

Há presença de outras substâncias na água?

Segundo a professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sandra Azevedo, a geosmina não é capaz de deixar a a agua turva. A especialista afirma que a molécula é transparente e incolor. Ainda segundo Sandra, ela também nada tem a ver com casos de adoecimento dos quais se queixa a população. Para ela, apenas sujeiras são capazes de deixar a agua turva e, nessas condições, ela não deveria ser distribuída.

A professora da UFRJ Sandra Azevedo é uma das maiores especialistas do país em cianobactérias e efeitos de poluição da água na saúde Foto: Fernando Lemos / 28-4-2016 / Agência O Globo
A professora da UFRJ Sandra Azevedo é uma das maiores especialistas do país em cianobactérias e efeitos de poluição da água na saúde Foto: Fernando Lemos / 28-4-2016 / Agência O Globo

Quando o carvão ativado será utilizado no tratamento?

A Cedae informou, no último dia 9, que adotará a aplicação de carvão ativado pulverizado no início do tratamento da água que chega às casas. A empresa informou ainda que já deu ordem para a aquisição. No entanto, não foi informado a partir de quando ele será aplicado no sistema.

E os sintomas após o consumo?

Dores abdominais, enjoos, diarreia e vômito têm relação estreita com o consumo de água infectada. Esses sintomas têm variado de pessoa para pessoa. A prefeitura do Rio chegou a registrar um aumento do número de pacientes com diarreia e vômito em suas unidades de saúde, porém frisou que não é possível relacionar os casos a um problema no abastecimento da Cedae. Além disso, unidades de pronto atendimento (UPAs) da Zona Oeste tiveram aumentos de até 200% nos casos de diarreia, vômito e gastroenterite numa comparação com os registros feitos há um ano.

Read More

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui