O último confronto entre EUA e Irã deixou o mundo mais perto de uma guerra? Especialistas respondem


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Analistas de EUA, Irã, Brasil e Europa responderam à pergunta de O GLOBO sobre as consequências do assassinato do general Soleimani e a retaliação iraniana

Vivian Oswald, especial para O Globo e André Duchiade

12/01/2020 – 04:30
/ Atualizado em 12/01/2020 – 10:35

Um cartaz pede revanche, em inglês, no enterro de Soleimani em sua cidade natal, Kerman Foto: ATTA KENARE / AFP/7-1-2020
Um cartaz pede revanche, em inglês, no enterro de Soleimani em sua cidade natal, Kerman Foto: ATTA KENARE / AFP/7-1-2020

“A poeira baixou por enquanto”

Ghoncheh Tazmini, iraniana, pesquisadora visitante do Centro de Oriente Médio da London School of Economics: 

Não estamos mais próximos de uma nova guerra. A poeira baixou por enquanto no duelo entre os Estados Unidos e o Irã. Os dois países enfrentaram uma das tempestades mais turbulentas nos últimos dias. O que vimos foi um ato de guerra, de terror, na forma do assassinato de um militar de alta patente de um terceiro país por um Estado (os EUA), que não está em guerra com nenhum dos outros. Foi um ato de guerra sem uma declaração de guerra. O Irã não caiu na armadilha de Trump. Não agiu de maneira imprudente, que poderia ter precipitado uma guerra. Reagiu de maneira proporcional conforme anunciado por suas lideranças. Trump deu um passo atrás e seu recuou ambíguo foi deixado claro no seu tuíte “tudo está bem”, em resposta aos ataques retaliatórios do Irã às bases americanas no Iraque. Entretanto, anunciou que imporia sanções adicionais ao Irã, um movimento de impacto limitado dada a multiplicidade e rigor das sanções já em vigor.

O aitolá Khamenei (D) é cumprimentado pelo novo chefe da Força Quds, Esmail Qaani (E); o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Mohammad Bagheri (C); e o chefe da Guarda Revolucionária, Hossein Salami (C) Foto: Escritório do líder supremo / AFP/ 9-1-2020
O aitolá Khamenei (D) é cumprimentado pelo novo chefe da Força Quds, Esmail Qaani (E); o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Mohammad Bagheri (C); e o chefe da Guarda Revolucionária, Hossein Salami (C) Foto: Escritório do líder supremo / AFP/ 9-1-2020

Leia mais: Guerra aberta entre EUA e Irã é improvável, mas limites foram borrados e incerteza aumentou

“As linhas vermelhas foram implodidas”

Hussein Kalout, ex-secretário de Assuntos Estratégicos do governo Temer e pesquisador da Universidade Harvard:

Não acredito que haja um risco de guerra entre os dois lados, até porque nenhum deles tem interesse. Ambos sabem da letalidade de conflito, que não ficaria restrito ao território iraniano, mas se alastraria para toda a região, o que o torna improbabilíssimo. É possível que as tropas americanas sejam retiradas do Iraque. Trump construiu uma narrativa nesse sentido da retirada, medida que já tomou em territórios no Afeganistão e em áreas de maioria curda. Se a retirada ocorrer, se insere nessa narrativa, mas não seria algo de imediato, há interesses econômicos envolvidos. Na minha leitura, iranianos vão tentar captalizar estrategicamente na região. Buscarão forçar a saída americana do Iraque e não vão desperdiçar as suas ações. Em resumo, a perda do general pode significar a recuperação do controle total do Iraque. No momento, as linhas vermelhas foram implodidas. Há agora um processo de reacomodação e de redesenho das regras de engajamento. Não há como como prever como essas novas regras serão, elas vão sendo talhadas conforme os acontecimentos se desenrolam.

Multidão se reune em torno do caminhão que carrega o caixão do general Qassem Suleimani em Teerã Foto: ATTA KENARE / AFP
Multidão se reune em torno do caminhão que carrega o caixão do general Qassem Suleimani em Teerã Foto: ATTA KENARE / AFP

“Uma guerra não convencional já está em curso”

Hager Ali, iraniana pesquisadora do Instituto de Estudos Globais e Regionais de Hamburgo:

A maneira como guerras são conduzidas mudou drasticamente. O modelo convencional de soldados contra soldados se tornou obsoleto: tem altos custos que ultrapassam os benefícios para os dois lados do conflito. No entanto, medidas de baixa intensidade como guerra com drones, no ciberespaço e outras novas tecnologias produzem um cálculo custo-benefício diferente, com menos riscos para as partes. É difícil apontar onde começa e onde termina uma guerra como essa porque os agentes, os armamentos e os alvos mudaram. O general Qassem Soleimani foi morto por um drone letal não tripulado, com custos e riscos baixos para o executor. Portanto, embora não estejamos necessariamente próximos de uma guerra clássica, o assassinato de Soleimani foi uma ação tática em uma guerra não convencional de baixa intensidade já em curso. As dinâmicas desse conflito estão condicionadas às políticas internas americana e iraniana. O processo de paz é, no mínimo, longo e complicado. Um primeiro passo é decidir que paz seria essa para o Oriente Médio. A definição básica de ausência de conflitos é difícil de se conseguir porque todos os conflitos em curso na região operam dentro de uma rede geopolítica fluida e estão parcialmente interconectados.

Manifestante pela paz em Washington. No cartaz, Trump diz que pode
Manifestante pela paz em Washington. No cartaz, Trump diz que pode “começar uma guerra se quiser” Foto: JIM WATSON / AFP/9-1-2020

“O risco de mal-entendidos e acidentes é real”

Leslie Vinjamuri, diretora do Programa de Estados Unidos e Américas de Chatham House, em Londres:

Existe um interesse tremendo não apenas do Oriente Médio, mas também dos EUA e da Europa, em evitar uma guerra. Isso é importante especialmente nas democracias ocidentais, onde a opinião pública faz diferença. Trump segue em uma linha cuidadosa. Envolver-se em uma guerra de grande escala que resulte em perdas de vidas americanas não seria algo bem recebido. Porém, o risco de mal-entendidos, acidentes e de uma escalada é claramente real. Portanto, é essencial a pressão para que se gerencie isso de forma a afastar a hipótese do uso de força e explorar o espaço da diplomacia. Infelizmente, o caminho para a diplomacia não é óbvio neste momento. Também é difícil ver como o acordo nuclear com o Irã pode ser renegociado ou expandido. Ele é chave para a estabilidade regional.

Jovens iraquianos na cidade de Karbala levam foto de um manifestante morto nos protestos recentes no país, eclipsados pela confrontação entre EUA e Irã Foto: MOHAMMED SAWAF / AFP/10-1-2020
Jovens iraquianos na cidade de Karbala levam foto de um manifestante morto nos protestos recentes no país, eclipsados pela confrontação entre EUA e Irã Foto: MOHAMMED SAWAF / AFP/10-1-2020

“O grande impacto foi no Iraque”

Peter Jackson, catedrático em Segurança Global da Universidade de Glasgow:

O mundo está mais perto de uma guerra do que estava antes do ataque que matou o general iraniano Qassem Soleimani. Mas não acho provável, não nos próximos meses. Os iranianos demonstraram força e avisaram antes de reagir. Devem fazer ataques “ por procuração” (através de aliados) no futuro. Certamente fizeram um cálculo de que um conflito agora só beneficiaria Donald Trump internamente, no contexto eleitoral. Foi por isso que ele determinou o ataque, na minha opinião, para colher frutos eleitorais. Temos que lembrar que Soleimani era um verdadeiro problema estratégico no Oriente Médio, onde queria reforçar o poder iraniano. O grande impacto, porém, foi na desestabilização do Iraque, e essa é a principal fonte de incertezas. Os beneficiários do que aconteceu foram o Estado Islâmico e os xiitas. As implicações de longo prazo são as mais importantes, a menos que Trump perca a eleição e o novo presidente mude a maneira de lidar com a região. No caso de um conflito, acredito que a Rússia e a China poderiam ficar contra os EUA. Mas, repito, acho muito pouco provável.

Multidão participa da procissão fúnebre do general Soleimani (na foto) em sua cidade natal, Kerman Foto: ATTA KENARE / AFP/7-1-2020
Multidão participa da procissão fúnebre do general Soleimani (na foto) em sua cidade natal, Kerman Foto: ATTA KENARE / AFP/7-1-2020

“Assassinato foi precedente para outros países”

Benjamin Friedman, diretor de políticas do instituto Defense Priorities, de Washington:

A despeito do sangue que tivesse em suas mãos, Soleimani era um general de um país com quem não estamos em guerra. Sua morte estabelece um precedente em que outros países podem se inspirar. Nesse sentido, sem ser necessariamente como um resultado direto, seu assassinato aumenta o risco de um confronto em larga escala. Os Estados Unidos não mataram só Soleimani, mas também o comandante do Kataib Hezbollah [milícia xiita iraquiana pró-Irã], que está enfurecido. O fato de o Parlamento do Iraque ter pedido que as tropas saiam do país só aumenta as tensões. É provável que a escalada continue, as chances de uma milícia ou de alguém no Iraque lançar um foguete contra americanos no Iraque aumentaram, infelizmente. A esperança é que Washington retire suas tropas do Iraque e da Síria.

Estudantes do Iraque contra as intervenções de EUA e Irã no país Foto: ESSAM AL-SUDANI / REUTERS
Estudantes do Iraque contra as intervenções de EUA e Irã no país Foto: ESSAM AL-SUDANI / REUTERS

“Os EUA também não são uma boa influência”

Christopher Mott, autor de “The formless empire : a short history of diplomacy and warfare in Central Asia” (O império sem forma: uma pequena historia da diplomacia e da guerra na Ásia Central):

Os dois países parecem ter recuado do conflito, por enquanto. Mas a situação está muito no ar, esse assassinato foi muito inesperado e deixou uma situação muito instável. Neste primeiro momento, retrocederam, porque ninguém quer uma guerra. Mas, em médio prazo, foi ruim, tornou a situação mais perigosa. Se o Irã quiser atacar, pode usar aliados no Iraque ou seus aliados huthis no Iêmen, o que seria muito eficiente. Presumimos que Trump não quer guerra, porque ele foi eleito por eleitores céticos em relação ao que houve no Iraque e no Afeganistão. Ele pode ordenar uma ação muito ousada, mas não quer levar o país a uma guerra. O assassinato de Soleimani foi a maior das violações das linhas vermelhas. A resposta do Irã foi muito contida. No Iraque, também, a situação fica muito instável. É uma grande incógnita se as tropas americanas vão permanecer no Iraque, desde que a maioria xiita votou pela sua saída. Acredito que, em longo prazo, as tropas deixarão o país, mas não não rápido demais, para não parecer que o Irã os pôs para fora. Muitos se opunham à influência do Irã no Iraque. Eles foram lembrados que os EUA também não são uma boa influência.

Manifestante em Nova York segura cartaz contra uma guerra dos EUA com o Irã Foto: SPENCER PLATT / AFP
Manifestante em Nova York segura cartaz contra uma guerra dos EUA com o Irã Foto: SPENCER PLATT / AFP

“Não mais do que de costume”

Michael Burleigh, historiador e autor do livro “The Best of times, the worst of times: a history of the present” (O melhor dos tempos, o pior dos tempos: uma história do presente):

Provavelmente não estamos mais próximos de uma guerra do que de costume. Os dois lados deixaram clara a sua posição para as respectivas plateias domésticas antes de recuar.

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